Perplexa e consternada após a invasão à Ucrânia, a opinião pública brasileira pouco sabe que há cerca de 40 anos foi o Brasil que esteve em vias de invadir um de seus vizinhos menores, o Suriname. Uma campanha bélica brasileira hoje pode soar como algo irrealista, mas foi exatamente o que foi proposto ao presidente João Figueiredo em 1983.

Em junho daquele ano, Figueiredo recebeu um comitiva americana que falava em nome do presidente Ronald Reagan. Ainda se vivia um período relativamente tenso da Guerra Fria. Na União Soviética, quem dava as cartas era o soturno Yuri Andropov, e não havia sinal dos ventos liberalizantes que um par de anos depois seriam trazidos por Mikhail Gorbachev. Com esse pano de fundo, os Estados Unidos manifestaram sua preocupação com a expressiva presença militar cubana no Suriname.

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Temia-se, àquela altura, que o pequeno país fronteiriço com o Brasil pudesse se tornar um enclave da revolução comunista no Cone Sul. Com a publicação das memórias de Reagan e a retirada da classificação de confidenciais de documentos americanos, ficou clara a proposta a Figueiredo: uma invasão terrestre por tropas brasileiras ao país vizinho.

Se a Guerra Fria não era uma preocupação real do Brasil naquele início de década de 1980, a debilidade da economia brasileira — e sua dependência da boa vontade da Casa Branca — era algo que causava calafrios ao país. Para dificultar uma situação já complexa, os Estados Unidos avalizavam as negociações brasileiras com os credores internacionais, de modo que contrariar seus interesses naquele momento não era nada trivial.

Os intentos americanos eram por demais beligerantes e consistiam numa arrojada manobra naval no litoral do Suriname, além da tomada do aeroporto de Paramaribo. Ao Brasil, caberia disponibilizar tropas terrestres aptas a levar a cabo a pretendida invasão, em gesto que significaria uma agressão à soberania surinamesa, rompendo a consolidada postura diplomática brasileira de não intervir em assuntos internos de outros países.

Se Reagan apostava que a grave crise econômica que o Brasil atravessava fosse facilitar sua vida, enganou-se. Figueiredo rechaçou a intenção belicosa e, ao final, concordou em enviar ao Suriname uma missão que daria algo muito além da cooperação militar oferecida por Cuba. O Brasil ajudaria a desenvolver várias áreas estratégicas daquele país.

Deu certo.

O Brasil da década de 1980 era um país combalido economicamente, mas, mesmo assim, manteve a sua postura altiva e, principalmente, a liderança na região — não aceitando ingerências de quaisquer das duas superpotências na América do Sul e mantendo uma postura de não alinhamento automático a interesses extracontinentais.

Pelas lembranças escritas de próprio punho por Ronald Reagan, o fato relevante que conseguiu mudar o curso da história foi a oposição de Figueiredo à proposta, pois, em suas palavras, o presidente brasileiro “tinha uma ideia algo diferente da nossa”. Pura verdade. Tal postura foi decisiva para que se evitasse uma guerra em território sul-americano.

O legado brasileiro, guardadas as devidas proporções e observados os respectivos contextos, tem semelhança com o momento atual. A Vlaridmir Putin, fica o exemplo de que a cooperação técnica é muito mais eficaz — e, sobretudo, muito mais humana — do que qualquer iniciativa beligerante. A Volodymyr Zelensky, resta a certeza de que resistir, mais do que um ato de coragem e mesmo diante de todas as adversidades, é a coisa certa a fazer.

Apesar do pedido de Figueiredo para ser esquecido, este fato deve ser lembrado. Num momento tão dramático para o mundo, o legado brasileiro é um bom exemplo de como a via diplomática ainda é a chave para a paz mundial.

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