As relações da Rússia com países da América Latina são analisadas na edição de segunda-feira (18) do jornal francês Le Figaro. A desconfiança histórica da esquerda latino-americana em relação aos Estados Unidos favorece a crescente influência de Moscou na região, avalia o diário conservador. A reportagem, bastante detalhada, mostra que “se por um lado as relações energéticas, técnicas e militares são constantes, as trocas comerciais entre Moscou e a região são insignificantes”.

Le Figaro mostra que a presença russa no continente latino-americano já era forte nos tempos da Guerra Fria, mas foi estrategicamente reforçada desde a chegada de Vladimir Putin ao poder, no ano 2000. Cuba permanece um aliado histórico de Moscou na região, mas nos últimos 22 anos, sobretudo em diferentes momentos de governos de esquerda, a influência russa se expandiu para outros países, como Equador, Bolívia, Venezuela, Paraguai, Peru e Brasil, além países no norte como Guiana e Suriname, e Nicarágua, na América Central.

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A recente visita do presidente argentino, Alberto Fernández, ao Kremlin, em fevereiro, poucos dias antes do início da guerra na Ucrânia, mostrou a atração que Moscou ainda exerce sobre algumas capitais. Fernández disse a Putin que estudava um meio de fazer da Argentina “a porta de entrada da Rússia na América Latina”. Fernández foi a Moscou disposto “a tornar a influência russa mais decisiva, a fim de eliminar a dependência da Argentina dos Estados Unidos”, recorda a reportagem. Porém, cada país tem sua agenda em relação a esse delicado equilíbrio de forças entre Washington e Moscou, assinala o jornal francês.

De acordo com o Le Figaro, “Cuba permanece um ponto nevrálgico da estratégia russa na região”. Mas é notório que o protagonismo do Kremlin cresceu muito na Venezuela, atualmente o principal importador de armas da Rússia na região. “Segundo várias fontes, não confirmadas, mercenários do grupo Wagner (uma organização paramilitar próxima de Putin) fazem a segurança do presidente venezuelano, Nicolás Maduro”, afirma o diário. Outro aliado nessa área é a Nicarágua, que recebeu dezenas de tanques de guerra, helicópteros e sistemas antimísseis de Moscou.

Entretanto, com a guerra na Ucrânia, os países se dividiram. No caso do Brasil, a posição é ambígua, nota o Le Figaro. O governo de Jair Bolsonaro denunciou o uso da força na invasão da Ucrânia, ao mesmo tempo em que demonstrou solidariedade em relação às repúblicas separatistas de Donetsk e Lugansk, no leste ucraniano.

No início de março, o Brasil exortou a Rússia a cessar a agressão contra a Ucrânia na Assembleia-Geral da ONU, mas dias depois se absteve na votação que suspendeu a Rússia da Conselho de Direitos Humanos das Nações Unidas, após a descoberta de crimes de guerra durante a ocupação russa em Bucha. Nessa ocasião, México, El Salvador, Belize, Suriname e Guiana se abstiveram, como fez o Brasil. Já Argentina, Peru, Colômbia e Chile votaram a favor da suspensão da Rússia do Conselho da ONU.

Na opinião do jornal francês, quem melhor descreveu a ambivalência latino-americana ante a posição dos Ocidentais e da Rússia foi a ex-presidente argentina Cristina Kirchner, em 2014. “Não é possível defender a integridade territorial quando se trata da Crimeia e rejeitá-la quando o assunto são as ilhas Malvinas e a Argentina”, declarou Kirchner.

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