Portadoras do distúrbio simulam doenças, mentem para médicos e podem levar filhos à morte.

Em busca de uma resposta para uma febre que não baixa, Ana leva seu filho Pedro a uma infinidade de médicos, hospitais e laboratórios. Compra remédios, passa noites em claro, pede ajuda a desconhecidos na internet. Ana seria uma típica mãe cuidadosa não fosse um único problema: a febre de Pedro na verdade não existe. Ela é uma invenção da mãe, que, desde o nascimento do menino, o expõe a cansativas e dolorosas intervenções médicas em busca do diagnóstico de uma doença imaginária.

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Pode parecer contraditório que alguém que supostamente deve zelar pelo bem-estar de um filho acabe submetendo-o a altas doses de sofrimento.

No entanto, a lógica torta é fruto da síndrome de Münchausen por Procuração, uma patologia em que um responsável por uma criança, em sua grande maioria a mãe, simula ou aumenta de forma intencional sintomas em seu filho.

Seja uma febre insistente ou manifestações como asfixia e sangue na urina, a criança vítima de uma mãe Münchausen apresentará de maneira compulsiva indícios de doenças muito graves, que precisam de investigação urgente. Certamente passará longos períodos internada, e não manifestará nenhum dos sintomas relatados pela mãe na presença de outras pessoas, apenas quando estiver sozinha com ela — afinal, todos os indicativos são fictícios.

Diretor dos ambulatórios do IPq (Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas), em São Paulo, o psiquiatra Rodrigo F. M. Leite relata que os objetivos das mães Münchausen são variados, mas que há algo comum entre todas elas.

— Elas fazem isso para garantir atenção. É uma forma de indiretamente receber cuidado, mas de maneira inconsciente.

Entre todas as simulações de que as mães se queixam nas salas de emergência brasileiras, o envenenamento é a mais frequente delas. Geralmente, ele começa com pequenas quantidades, e aumenta progressivamente até culminar na hospitalização da criança. Para tanto, as mães usam todo o tipo de substâncias, dando preferência aos remédios — na literatura médica há casos que vão desde aspirina até mesmo fortes antidepressivos.

Outros relatos dão conta de desidratações, causadas por proposital baixa oferta de líquidos, corpos estranhos no estômago, forçados para dentro do organismo da criança pela própria mãe, e septicemias, causadas por injeção de material contaminado.

O pediatra Silvio Zuquim, professor da Santa Casa e membro de um comitê contra maus tratos infantis da instituição, relembra situações alarmantes com as quais se deparou ao longo dos anos de atendimento em consultório e na emergência do hospital.

— Aparece de tudo. Tem mães que derrubam a criança e ela tem um trauma, o que exige que se faça tomografia, radiografias, exames para os quais a criança tem que ser anestesiada. Às vezes são sintomas simples, como uma febre em um lactente. Você examina, não acha nada, então acaba tendo que colher exames. Sondar uma criança pequena para exame de urina é muito desagradável. Isso quando ela não fala que a criança teve uma convulsão e febre, e aí precisamos colher o líquor dessa criança.

No histórico da Santa Casa, houve também uma mãe que em segredo espetava o filho pequeno com o alfinete de segurança da fralda, fazendo-o chorar com frequência. Zuquim conta que, diante de um caso de um bebê sem sintomas e queixa constante, os médicos levaram semanas em busca de um diagnóstico, até que se descobriu a verdadeira causa do problema.

Para o pediatra, a intenção maior por trás das ações de uma mãe Münchausen é a de prejudicar a criança, causando-lhe dor e sofrimento.

— Elas estudam, aprendem qual é o sintoma e vão se aprimorando. Elas têm uma compulsão por descobrir sintomas e sinais e chegam a estudar a doença. Ainda mais hoje em dia, com o acesso à internet, simular uma doença é mais fácil.

A síndrome de Münchausen por Procuração é mais frequente com crianças pequenas, que ainda não se comunicam perfeitamente e que, por isso, não conseguem se queixar das agressões que sofrem nem acusar oficialmente a mãe.

Embora não haja estimativas da porcentagem da população afetada pela doença, levantamentos apontam que 93% dos portadores de Münchausen por Procuração são as mães ou cuidadoras do sexo feminino, e que apenas 7% são homens.

Zuquim explica qual é o procedimento a partir do momento que é possível provar que uma criança está sendo vítima de alguém com Münchausen.

— Pode-se chegar ao ponto de a criança ser tirada do poder da mãe. Se houver risco, ela não volta. Ou fica com o Poder Judiciário, ou com alguém da família que queira se responsabilizar por ela.

Além da dificuldade de se atestar o problema, outra etapa complicada é fazer com que a portadora da síndrome aceite o diagnóstico. De acordo com Rodrigo F. M. Leite, é algo “quase impossível” , por se tratar de uma situação limite.

Àquelas que se reconhecem como portadoras de Münchausen por Procuração, é oferecida a chance de tratamento psicológico. Embora não exista terapia específica para a patologia, recomenda-se análise individual e, em alguns casos, também em família.

Isso porque se trata de uma doença que afeta todo o núcleo doméstico, com reflexos graves que podem destruí-lo por completo.

— Muitas vezes o companheiro acaba sendo complacente, há um conluio da família que permite este comportamento. A síndrome de Münchausen por Procuração também é muito associada ao divórcio, porque muitas vezes o marido não aceita as ações da mulher e rompe o casamento. De qualquer maneira, há sempre algo muito disfuncional nesta relação.

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Fonte: R7

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