GEORGETOWN – A descoberta de enormes reservas de petróleo pela ExxonMobil em 2015 transformou a economia da Guiana. Com quase 11 bilhões de barris localizados na costa, o país está a caminho de se tornar um dos principais produtores mundiais de combustíveis fósseis, colocando-se em uma encruzilhada entre o crescimento econômico e a sustentabilidade ambiental. A produção petrolífera começou em 2019, e atualmente são extraídos cerca de 650 mil barris por dia, com previsão de atingir 1,3 milhão até 2027. Isso fez da Guiana a economia de maior crescimento no mundo, com o PIB aumentando mais de 33% em 2023 e mais de 40% em 2024.
O presidente Mohamed Irfaan Ali defende que a riqueza gerada pelo petróleo será utilizada para melhorar a infraestrutura, a assistência médica e as estratégias de adaptação climática. No entanto, especialistas alertam que essa prosperidade pode não chegar à população de forma equitativa. O país é um dos poucos considerados um sumidouro de carbono, pois suas vastas florestas tropicais absorvem mais CO2 do que emitem. Com cerca de 90% do território coberto por vegetação nativa, a Guiana sempre foi um exemplo na proteção ambiental. Em 2009, um acordo com a Noruega garantiu US$ 250 milhões para preservar seus 18,5 milhões de hectares de floresta.
Entretanto, a exploração petrolífera pode ameaçar esse status. Críticos apontam que apostar em combustíveis fósseis significa abrir mão da liderança climática conquistada. Melinda Janki, advogada especializada em questões ambientais, alerta que o governo está seguindo “um curso de desenvolvimento retrógrado e destrutivo”. A elevação do nível do mar é uma das principais ameaças ao país. Segundo a organização Climate Tracker, Georgetown pode ser severamente afetada até 2030 devido ao aumento das águas oceânicas. O governo planeja investir na construção de muros de contenção e outras infraestruturas para mitigar esses impactos.
Apesar do rápido crescimento econômico, muitos ainda enfrentam dificuldades. O custo de vida aumentou significativamente desde o início da extração de petróleo. A inflação foi de 6,6% em 2023, com os preços dos alimentos subindo drasticamente. “Desde que a extração de petróleo começou, notamos que nosso custo de vida disparou”, diz Wintress White, da organização Red Thread, que luta por melhores condições de vida para as mulheres guianesas. “O dinheiro não está chegando às massas”. Os contratos entre a ExxonMobil e o governo também são motivo de preocupação. Especialistas afirmam que a maior parte dos benefícios financeiros pode estar indo para as empresas petrolíferas, deixando o país com uma parcela menor dos lucros.
O futuro depende de como equilibrar a posição como campeão climático e, ao mesmo tempo, um produtor emergente de combustíveis fósseis. O governo aposta na exploração petrolífera como motor de desenvolvimento, mas ainda há incertezas sobre a distribuição da riqueza e os impactos ambientais a longo prazo. Com um crescimento econômico sem precedentes e uma posição estratégica no setor energético, o país se encontra em um momento crucial. Será possível aproveitar a riqueza petrolífera sem comprometer o compromisso ambiental e o bem-estar da população?