A violência na região amazônica brasileira está aumentando e agora abriga 13 das 30 cidades mais violentas do país, já que o narcotráfico e os crimes ambientais assolam a região, de acordo com a pesquisa Cartografia das Violências na Região Amazônica, recentemente publicada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, um grupo de especialistas sediado em São Paulo.

A pesquisa destaca três principais fatores para o aumento dos registros violentos da Amazônia: a maior presença de facções do crime organizado e as disputas entre elas pelas rotas transnacionais de drogas; o desmatamento realizado com o objetivo de desenvolver a agropecuária; a mineração ilegal e o avanço dessa atividade sobre terras indígenas.

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Facções do narcotráfico

As organizações do narcotráfico estão presentes em todos os nove estados da Amazônia Legal. São 21 facções, segundo o estudo, mas três delas encabeçam as disputas pelo comando do território: o Primeiro Comando da Capital e o Comando Vermelho – que nasceram há cerca de 30 anos e passaram a ter presença mais incisiva no norte do país a partir de 2018 –, e a Família do Norte, formada no estado do Amazonas em 2007.

Sete países fazem fronteira com a Amazônia brasileira: Bolívia, Colômbia e Peru, considerados os principais produtores de cocaína no mundo, além de Guiana, Guiana Francesa, Suriname e Venezuela. A vizinhança com as nações fornecedoras de drogas é um dos motivos que explicam, de acordo com a pesquisa, a atração das organizações do narcotráfico pela região. A questão fica ainda mais complexa em razão das articulações entre os grupos criminosos brasileiros e os dos países da América do Sul: “As facções brasileiras dependem de tais relações para receberem as drogas e colocarem em pleno funcionamento a venda de cocaína, ecstasy e skank no mercado interno e nas transações que envolvem o mercado global”, destaca a pesquisa.

Desmatamento

O estudo revela também que as áreas sob pressão do desmatamento mostram-se mais violentas do que as áreas florestais. Os conflitos fundiários são o principal motivador dessas taxas, a exemplo daqueles causados pela grilagem. Esse tipo de ação criminosa se utiliza frequentemente da derrubada da floresta, de incêndios e da falsificação de documentos para tomar posse de terras que pertencem ao poder público ou a particulares. Segundo a Cartografia das Violências, “o desmatamento funciona como um fator de valorização do preço da terra que pode valer mais de 20 vezes em comparação com uma terra ainda coberta pela floresta”.

Mineração ilegal

No atual contexto da região da Amazônia, a mineração ilegal gera conflitos entre indígenas, garimpeiros, ambientalistas, forças de segurança pública e facções criminosas do crime organizado, que desde 2018 passaram a explorar a atividade como forma de lucro e de lavagem de dinheiro.

O rastro da mineração ilegal tem crescido na Amazônia brasileira, onde os territórios indígenas são os mais afetados. Um levantamento feito pelo projeto MapBiomas – rede colaborativa formada por ONGs, universidades e startups de tecnologia do Brasil, que busca acompanhar as transformações do território brasileiro –, indicou que a área de garimpos em terras indígenas cresceu 495 por cento entre 2010 e 2020.

Além do desmatamento, o mercúrio usado pelos garimpeiros para extrair o ouro é tóxico e altamente danoso ao meio ambiente e à saúde humana. Segundo o Ministério Público Federal do Amazonas, cada quilo de ouro extraído ilegalmente na Amazônia produz, pelo menos, R$ 1,7 milhão (mais de US$ 310.000,00) em danos ambientais.

Combate

Para fazer frente à complexa problemática da violência na Amazônia, o governo brasileiro tem ampliado a atuação na região. De 2018 a 2022, o Exército Brasileiro (EB) enviou mais 1.624 militares para os comandos da Amazônia, do norte e do oeste, os quais têm ingerência sobre o território amazônico. O número representa um acréscimo de 5 por cento no efetivo na região, afirmou à Diálogo o Centro de Comunicação Social do Exército (CCOMSEx). Atualmente, o EB possui 32.622 militares servindo na região.

Houve também aumento no número de operações de combate a crimes transfronteiriços e ambientais. O CCOMSEx informou que, somente no Comando Militar da Amazônia, foram realizadas 125 operações até maio de 2022, enquanto que em todo o ano de 2021 foram realizadas 148 operações.

A Força Aérea Brasileira (FAB) também deu um passo importante em 2022 em relação à fiscalização da maior floresta tropical do mundo. Em maio, a FAB lançou dois microssatélites no espaço. Os equipamentos contribuem com as ações do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia, órgão subordinado ao Ministério da Defesa.

As imagens captadas pelos satélites serão utilizadas em apoio ao combate ao tráfico de drogas e mineração ilegal, atualização de produtos cartográficos, determinação da navegabilidade dos rios, visualização de queimadas, monitoramento de desastres naturais, vigilância da Zona Econômica Exclusiva e apoio às operações de vigilância e controle das fronteiras, declarou a FAB em um comunicado.

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