“É como ter uma família morando em uma cozinha.” Assim o diretor e roteirista David Ayer resume o conflito dos personagens de Corações de Ferro, seu olhar sobre uma unidade de combate no alvorecer da Segunda Guerra Mundial. A “cozinha” à que ele se refere é o tanque que se torna lar de Brad Pitt e seus comandados quando os aliados já combatiam o inimigo em casa, numa Alemanha acuada que aos poucos caia ante o avanço dos Aliados. “É um lugar claustrofóbico, então fiz um filme de guerra sobre a experiência de conversar”, continua. “Que é basicamente o que eles podiam fazer.”

Corações de Ferro, no entanto, não é sobre um bando de soldados batendo papo no interior de um tanque. Ayer pesquisou não só sobre o combate em veículos blindados no período como também filmes e documentos produzidos imediatamente após o fim do conflito, pois queria conhecer o que o mundo tinha a dizer quando as forças do Eixo se renderam e o mundo ainda respirava com dificuldade. Para criar uma narrativa dramática, e não um documentário, ele se concentrou na história de Norman Ellison (Logan Lerman), um soldado recém saído da adolescência que junta-se ao batalhão de Pitt. “A trama tinha de ser contida”, explica. “E mostrar a transformação desse garoto em um homem quebrado foi um bom dispositivo dramático.”

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Pitt e Lerman dividiam espaço com Michael Peña, Shia LaBeouf e Jon Bernthal, que passaram 8 meses juntos entre preparação e filmagens – realizada em um cenário 10 por cento maior que um tanque normal. “Foi um treinamento brutal”, revela Bernthal, mais conhecido por seu trabalho na serie The Walking Dead. “Tivemos de aprender a operar um tanque, em fiquei por todo o período longe das coisas modernas, não lia email, não olhava para o celular.” O ator explica que os soldados em Corações de Ferro não são super-heróis, cometem erros, perdem o foco: “É um drama familiar, e nem sempre a família concorda em tudo, às vezes as coisas ficam intensas… Essa é uma boa palavra para resumir”.

Foi uma decisão de David Ayer não maquiar a violência que pode ser retratada em um filme de guerra – e ele não desacelerou. “O estúdio mostrou confiança e não pediu cortes”, elabora. “Nem sempre o diretor está certo, algumas decisões são difíceis e os produtores enxergaram que o processo não mostra sempre resultados imediatos.” O diretor não atenuou a intensidade de algumas imagens, como soldados limpando pedaços de corpos de seu equipamento ou cadáveres anônimos empilhados, misturando-se com a paisagem bucólica. “A arte às vezes precisa mostrar de onde vem a sombra”, filosofa Ayer. “Alguns filmes de guerra são sobre heróis. Não é o caso aqui”. Liderando o elenco, Brad Pitt surge como capitão também fora de cena. Além de protagonizar o filme como Wardaddy Collier, que mostra a certa altura as marcas, físicas e psicológicas, deixadas pela guerra, também atuou como produtor, mantendo o foco de Ayer em contar a melhor história. “Brad sempre esteve na linha de frente”, continua o diretor. “Ele era como um irmão mais velho para o resto do elenco, trabalha muito duro, é um homem de família, tem talento. Ele é um astro que não carrega nenhum estereótipo negativo que vem com o rótulo.”

A Segunda Guerra Mundial ainda é terreno fértil para o cinema, e David Ayer estava ansioso para voltar ao período. “O conflito em si era absolutamente preto e branco, o inimigo era muito bem definido”, conta. “Mas a guerra faz as pessoas se revelarem. E eu escolhi mostrar essa história como o retrato de uma família… Uma família disfuncional, que busca algo e não sabe exatamente o que. Talvez a sobrevivência.” É nesse mesmo espírito que Ayer está preparando Esquadrão Suicida, baseado nos personagens da DC Comics, que faz parte do universo cinematográfico que a editora prepara para concorrer com a Marvel.

“Zack Snyder fez um trabalho incrível em O Homem de Aço”, elogia Ayer. “Mesmo sendo uma fantasia, ele criou regras realistas para continuar este universo. Eu pretendo dobrar um pouco as regras.” Esquadrão Suicida, que terá Will Smith à frente do elenco, traz vilões convocados pelo governo para cumprir uma missão em troca do perdão: “Não é um mundo de mocinhos e bandidos bem definidos, então acho que é bem a minha praia”. Seja na realidade, seja na fantasia, uma frase deCorações de Ferro parece reverberar mais forte: “Ideais são pacíficos, a história é violenta”. Quando pergunto a David Ayer se ele acha que um dia vamos aprender, ele hesita por alguns segundos: “Pessoas são pessoas, e isso faz parte da experiência humana… Sempre haverá guerra”.

 

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Fonte: UOL

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