Cerca de 48 milhões de eleitores da França foram convocados às urnas no dia 10 de abril para escolher aquele ou aquela que vai dirigir o país nos próximos cinco anos. Esses eleitores vêm dos quatro cantos da França metropolitana, mas também dos chamados territórios ultramarinos, como a Guiana Francesa, situada na fronteira com o Brasil, onde os moradores nem sempre se sentem representados pelos políticos que dirigem o país a partir de Paris, a 7.000 quilômetros de distância.

Entre regiões, departamentos e coletividades, a França tem 12 territórios ultramarinos. Boa parte deles, como a Martinica, no Caribe, a Reunião, no Índico, ou a Polinésia Francesa, no meio do Oceano Pacífico, são ilhas. Mas a Guiana Francesa é uma exceção nesse panorama.

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Com seus 300 mil habitantes, o território divide com o Brasil a maior fronteira terrestre da França. São mais de 700 quilômetros, boa parte deles encravados na floresta amazônica, colados ao Estado do Amapá. A região tem suas próprias preocupações, que vão desde o controle da imigração até as tensões ligadas ao garimpo ilegal e à exploração de recursos naturais, temas que raramente são citados pelos candidatos ao Palácio do Eliseu, sede da presidência francesa.

“Os ocidentais têm que entender que o que acontece aqui é importante para todos nós. E que eles mesmos estão destruindo o meio ambiente”, alerta Claudette Labonté, representante dos povos autóctones da Guiana Francesa e presidente da Federação indígena Parikweneh.

Como muitos moradores, ela insiste que as riquezas naturais, assim como o patrimônio dos povos autóctones, quase nunca são lembrados pelos políticos da “Metrópole”, como é chamada a França metropolitana. “Os únicos que são realmente aliados para os autóctones são os ecologistas, que sempre nos apoiaram, inclusive no âmbito internacional”, explica.

Porém, os ecologistas estão longe nas pesquisas de intenção de voto, seja na Metrópole ou nos territórios ultramarinos. Além disso, ao conversar com os eleitores, poucos olham para as notícias sobre a campanha metropolitana. A maioria prefere olhar para o retrovisor e constatar que, independentemente do partido, os guianenses nunca foram prioridade.

“Mitterrand, Chirac, Sarkozy, Holande… Todos sempre nos abandonaram. A Guiana Francesa é o último lugar que o Estado francês cuida”, desabafa Luis, um peruano que vive na Guiana Francesa desde 1989 e que trabalha no mercado municipal de Caiena. “Se comparamos com a Martinica ou a Guadalupe, estamos realmente atrasados. Falta muita coisa para o desenvolvimento da Guiana”, completa sua colega Elizabeth.

“Tem muito desemprego na Guiana Francesa”, opina a haitiana Kerline, que passava pelo estande e decidiu participar da conversa. A jovem não vota na Guiana, como muitos de seus compatriotas, que representam a maior diáspora do território. Mas ela tem grandes expectativas sobre o próximo chefe de Estado. “Espero do novo presidente que ele faça mais do que o senhor Macron, que cuide mais dos jovens, que estão em dificuldades. Tem muitos jovens sem trabalho, nas ruas e sem atividades para eles, que acabam caindo nas drogas”, denuncia.

Voto de protesto

Os testemunhos refletem bem a sensação de abandono de muitos moradores, principalmente em cidades como Caiena, onde a pobreza é visível e os índices de violência elevados. E como uma forma de protesto, muitos acabam se abstendo ou apoiando candidatos dos extremos, como Jean-Luc Mélenchon, da esquerda radical, ou Marine Le Pen, a líder da extrema direita, que aliás encabeçaram o primeiro turno da eleição de 2017 na Guiana Francesa. Já no segundo turno, Emmanuel Macron conquistou 64% dos votos, mas apenas 41% dos eleitores do território votaram, ou seja, quase metade da taxa de participação atingida na França metropolitana.

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