Foto: SERGEY BOBOK / AFP

A icônica Praça da Independência de Kharkiv é um amontado de escombros e detritos. Os cabos de eletricidade caíram e o prédio da administração regional tornou-se um esqueleto fumegante. Em frente, um carro queimado e os restos da barraca de lona amarela e azul — como a bandeira ucraniana — que até recentemente era ocupada por voluntários que coletavam ajuda para civis afetados pela guerra em Donbass.

Um apito incessante e irritante inunda tudo, assim como o cheiro espesso e azedo de queimado que se segue ao bombardeio. Em um dos cantos da enorme praça quase deserta, Mijail Ignatienko se apoia em duas muletas enquanto observa os restos de sua mercearia, arrasada por um ataque de mísseis das forças enviadas pelo presidente russo Vladimir Putin. “Agora sofremos, mas vamos vencer”, diz o homem de 59 anos, com os olhos lacrimejantes.

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Tropas russas espreitam Kharkiv, a segunda maior cidade do país em população (1,5 milhão), majoritariamente de falantes russos — como os cidadãos que o chefe do Kremlin afirma proteger nesta ofensiva total — e um alvo prioritário de Putin, que busca capturar a cidade para ganhar o controle do Leste da Ucrânia e facilitar um movimento de pinça na região de Donbass.

O Exército ucraniano e milícias cidadãs de todos os tipos, que patrulham as ruas do centro de fuzil na mão e pedindo documentação aos poucos transeuntes, resistem. Na tentativa de colocar a cidade de joelhos, o Kremlin intensificou seus ataques nos últimos dias. E tem feito isso contra áreas residenciais e infraestrutura civil. Os ataques já mataram 21 pessoas e deixaram dezenas de feridos. O Kremlin garante que não ataca alvos civis.

“Esta não é uma questão política ou econômica. Esta é uma guerra só porque Putin odeia os ucranianos”, diz Olga Volkova, uma professora de 42 anos, caminhando apressadamente pelo centro da cidade, onde há um mês havia uma pista de patinação no gelo, onde casais e famílias passavam a tarde se divertindo.

Volkova, com um chapéu puxado quase até as sobrancelhas para se proteger da garoa fria que cai sobre Kharkiv nesta quarta-feira, diz que tentou ingressar na milícia das Forças de Defesa Territoriais, mas não foi aceita. “Eles só aceitam pessoas experientes, então não me deram uma arma, mas estou me voluntariando”, explica a professora, dando de ombros.

Volkova também ajudou com a marquise destruída na Praça da Independência, que fora transformada em um memorial aos soldados ucranianos mortos na guerra de Donbass contra os separatistas pró-Rússia apoiados pelo Kremlin — que varreu 14 mil vidas em oito anos —, para o qual os voluntários estão agora à procura de outro local.

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