Nas contas da prefeitura, imigrantes representam mais de 10% da população da cidade. O reflexo se vê nas ruas: praças ocupadas, abrigos lotados e casas com até 31 moradores. Fluxo migratório começou em 2015, bateu recordes em 2017 e está aumentando em 2018.

á é noite quando uma multidão de venezuelanos faz uma enorme fila para receber um pão e um copo de leite na praça Simón Bolivar, em Boa Vista. Famintos, eles devoram o alimento doado e depois se deitam no chão para dormir mais uma vez ao relento.

“A vida nas ruas do Brasil ainda é melhor do que continuar na Venezuela, porque aqui tem comida”, diz Luiz Gonzalez, de 36 anos, que chegou ao Brasil há menos de uma semana. Sem dinheiro, assim como muitos outros, ele dorme no chão da praça ocupada por mais de 300 venezuelanos recém-chegados a Roraima.

Essa cena tem se tornado cotidiana na cidade que recebe um número crescente de imigrantes. Já são 40 mil, segundo as contas da Prefeitura de Boa Vista, o que equivale a mais de 10% dos cerca de 330 mil habitantes da capital do estado com menor índice populacional do Brasil.

Os venezuelanos que buscam refúgio em Roraima fogem, principalmente, da fome. Mas não é só isso, eles também querem escapar da severa escassez de remédios, da instabilidade política e de uma inflação galopante de 700% na Venezuela, que corrói a moeda e faz com que cada vez mais pessoas busquem comida no lixo.

A instabilidade política também preocupa. O presidente da Venezuela, Nicolás Maduro, se declarou candidato à reeleição, o que rendeu críticas da comunidade internacional. A Assembleia Nacional Constituinte, ligada a Maduro, decidiu antecipar o pleito, que seria no final de 2018, para antes de 30 de abril. Além disso, em uma decisão que agravou ainda mais a crise, o Tribunal Superior de Justiça recusou o registro de uma chapa que reúne vários partidos de oposição, deixando o caminho livre para a reeleição do presidente.

De 1º a 25 de janeiro, 8 mil imigrantes entraram pela fronteira terrestre de Pacaraima, município vizinho à cidade venezuelana de Santa Elena de Uairén. No mesmo período, foram 5.952 fazendo o caminho de volta para o país natal, gerando um saldo que pode ser de 2 mil venezuelanos a mais em Roraima. Não é possível afirmar com precisão porque uma mesma pessoa pode ter entrado ou saído do país várias vezes.

Mesmo que não sejam precisos, os dados estimam uma realidade inegável. O impacto da imigração é notável por todos os lados. Nas ruas, português e espanhol se misturam e o ‘portunhol’ se populariza.

Por toda a cidade, há semáforos lotados de venezuelanos segurando placas em que pedem emprego. Outros estão nas portas dos supermercados em busca de comida e milhares dormem nas ruas, principalmente em praças. Os abrigos abertos pelo governo estão superlotados há meses e até 31 imigrantes vivem sob o mesmo teto em casas alugadas.

Na fuga da fome, o fluxo é desordenado e a imigração ocorre até a pé. Há venezuelanos que, sem dinheiro algum para custear passagens de vinda para o Brasil, decidem no auge do desespero caminhar e contar com a sorte de conseguir carona para percorrer os 218 km da BR-174 que separam Pacaraima e Boa Vista.

Esse foi o caso do jornalista Leonardo Cordova, de 28 anos. Ele convivia diariamente com a fome na casa onde morava em Cumaná, cidade costeira no estado de Sucre, Nordeste da Venezuela. No final de 2017, ele concluiu que tinha que ir embora do país.

“Eu não tinha dinheiro para nada e estava esperando uma bolsa de comida que o governo iria me vender de forma irregular. Estava cansado de viver nessa situação, e pensando em sair da Venezuela, mas não tinha recursos para isso. Finalmente, a comida não chegou e fiquei realmente desesperado. Foi aí que decidi ir embora, peguei o pouco dinheiro que tinha e vim para o Brasil”.

O jornalista enfrentou um percurso de mais de 1,2 mil km viajando de carona, de ônibus e até mesmo a pé. Foi a fuga da escassez de comida, de remédios e do medo de morrer de fome.

“Viver na Venezuela é como um pesadelo. Você não tem esperança para o futuro, porque a luta diária é pela comida, pela sobrevivência. Você só consegue pensar em não morrer.”

A decisão de vir a pé para o Brasil é nova, mas o fluxo de estrangeiros fugindo da fome começou há cerca de três anos. A Polícia Federal tem recebido pedidos de refúgio de venezuelanos em Roraima desde 2015. Naquele ano foram 280 solicitações, e 2.312 em 2016.

O recorde foi em 2017, com 17.130 pedidos. Desses, nenhum foi concedido pelo Comitê Nacional para Refugiados (Conare), órgão subordiando ao Ministério da Justiça.

Os venezuelanos não são considerados refugiados porque o refúgio é concedido àqueles que fogem de perseguições políticas, étnicas e religiosas. No caso dos venezuelanos, a fuga tem motivação econômica. Eles pedem o visto de refúgio porque, mesmo tendo apenas a solicitação em mãos, já podem trabalhar legalmente no país.

Neste ano, os números já chamam atenção: até a primeira quinzena de janeiro foram 640 pedidos de refúgio feitos, e outras centenas agendados, segundo a Polícia Federal. Cerca de 450 venezuelanos são atendidos por dia na unidade da PF na capital. A maioria são jovens do sexo masculino com bom nível de escolaridade e que, por isso, querem se regularizar no país para poder trabalhar.

Além do refúgio, os estrangeiros agora também pedem a chamada residência temporária. Esse modo de ingresso passou a ser gratuito em agosto de 2017. De lá até dezembro, foram 3.350 pedidos de venezuelanos.

Para Gustavo da Frota Simões, pesquisador e professor da Universidade Federal de Roraima (UFRR), a imigração tem seguido uma crescente, e o termômetro disso são as multidões, que de segunda a sexta-feira lotam a Superintendência da Polícia Federal em Boa Vista. Há quem espere quase um dia inteiro na fila e até durma na rua para se regularizar no país.

“O fluxo de imigrantes, sem sombra de dúvidas, está aumentando. Mas não é possível fazer previsões para o futuro, porque a vinda deles para o Brasil está fortemente relacionada à situação política da Venezuela.”

A imigração impacta ainda os serviços de saúde e educação, que estão sobrecarregados, segundo as autoridades locais. Dados da Secretaria de Saúde de Roraima apontam que, em 2014, 760 venezuelanos foram atendidos na rede pública de saúde. Três anos depois esse número saltou para 15.055. Na única maternidade do estado, foram mais de 340 partos de mulheres venezuelanas em 2017.

O número de imigrantes que estão em Boa Vista também é refletido nas escolas da capital. A prefeitura diz que, de 2015 a 2017, o número de crianças venezuelanas matriculadas em escolas da rede municipal de ensino cresceu 1.064%. Além disso, só no ano passado, quase 300 famílias venezuelanas receberam o auxílio Bolsa Família na cidade (equivalente a 1% dos 24 mil beneficiários do programa em Boa Vista).

Fugindo da fome a pé

Muitos imigrantes têm dinheiro para sair do país natal, mas não para pagar passagens de ônibus ou táxi para viajar de Pacaraima a Boa Vista (entre R$ 30 e R$ 50). Assim, eles se veem obrigados percorrer a estrada a pé ou pedir carona, levando apenas o que conseguem carregar nos braços.

Carol Parrare, de 36 anos, saiu de Pacaraima com outros sete familiares na madrugada de uma segunda-feira e chegou a Boa Vista na quarta. Na viagem, que levou dois dias e uma noite, caminhou por vários trechos e pediu carona, comida e água.

Ela conta que não sabia a distância exata entre as duas cidades e se surpreendeu com o longo caminho que teve de percorrer. Na estrada, a BR-174, encontrou vários imigrantes fazendo o mesmo trajeto.

“Pensava que era mais perto, muito mais. Vimos várias pessoas caminhando pela estrada, nos encontrávamos, depois nos dispersávamos. Eram famílias como nós”.

Na Venezuela, Carol Parrera morava em Maturín e trabalhava como secretária em uma escola, mas mesmo com o trabalho fixo não conseguiu mais se manter no país. “A situação econômica na Venezuela é sumariamente ruim. Às vezes ficávamos dias sem comer, tremendo de fome, sem dinheiro que alcance o preço da comida.”

‘Território venezuelano’: a vida na praça

Em Boa Vista há três abrigos para imigrantes. Dois estão superlotados e, juntos, todos têm capacidade para no máximo 2 mil pessoas. Também há milhares de venezuelanos em situação de rua e uma parcela muito maior de imigrantes dividindo aluguéis.

Nas ruas, um dos principais pontos de aglomeração dos venezuelanos é uma praça na zona Sul da capital. O local abriga hoje pelo menos 300 pessoas e carrega o nome de Simón Bolívar – líder militar que lutou pela libertação da América Latina do domínio espanhol.

A praça fica na margem esquerda da Avenida Venezuela, trecho urbano da BR-174, a mesma que liga o Brasil ao país vizinho. No local, há um busto de Simon Bolívar, que os imigrantes dizem ser fonte de proteção – e orgulho – para todos que ali vivem.

“Para nós, Simon Bolívar representa liberdade, igualdade social. […] hoje estamos aqui refugiados na praça. Ela é como se fosse o nosso território venezuelano aqui no Brasil, sentimos que podemos estar nela porque ele também está e nos protege”, diz Kelly Gomez, de 29 anos, formada em administração e recém-chegada ao país.

Quem olha de longe a multidão de venezuelanos abrigados na praça não imagina que ali tem gente que tinha casa própria, carro e uma vida estável na Venezuela. Hoje, quem dorme sob o chão duro e se alimenta do que ganha diz que tem saudade de casa e da família que ficou para trás. Mesmo assim, são unânimes: não querem voltar para a terra natal tão cedo.

 “Minha casa na Venezuela tem ar condicionado”, relembra Luiz Gonzalez, de 36 anos, que saiu da cidade de Maturín, no estado de Monagas, Leste do país. Ele deixou a mulher e os dois filhos pequenos e partiu com a missão de conseguir dinheiro para também trazê-los para o Brasil, mas não tem conseguido trabalho. “Já há muitos venezuelanos aqui em Boa Vista”, desabafa.

No país natal, Gonzalez era distribuidor de laticínios. Porém, a crise econômica, a hiperinflação e a instabilidade política do país levaram junto o seu trabalho. “Eu entregava leite, queijo e iogurte em comércios, mas na Venezuela não se consegue mais mercadoria. Eu estava trabalhando uma vez ao mês e ganhando tão pouco que não dava para viver.”

Assim como ele, os cerca de 300 venezuelanos que vivem na Simón Bolívar e em muitas outras praças da cidade – a prefeitura diz que todas as 53 praças da cidade em algum momento do dia ou da noite ficam ocupadas por venezuelanos – são unânimes em dizer porque escolheram ficar na rua em vez de ir para o abrigo do ginásio Tancredo Neves, criado em novembro do ano passado para receber imigrantes não-índios e em situação de rua na cidade.

“Nos falaram que no abrigo é muito perigoso, não tem segurança, não dá para confiar. Chegamos a ir até lá, mas e vimos que é bem arriscado. Por isso, mesmo vivendo dessa forma e até dormindo no chão preferimos ficar aqui. Nos sentimos seguros na praça”, conta o engenheiro José Leal, de 25 anos.

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